Você passou trinta anos sendo remunerado pelo tempo que dedicava à cadeira corporativa. Agora, o mercado não quer comprar seu relógio; ele quer comprar a sua sabedoria. E a diferença de preço entre os dois é abissal.

Há um momento silencioso e desconfortável na transição de todo executivo sênior para o mundo da consultoria independente. Não é o momento da demissão, nem o da abertura do CNPJ. É o instante exato em que um cliente potencial, diante da mesa de reuniões (ou na tela do Zoom), faz a pergunta fatídica: “Qual é o valor da sua proposta?”. Nesse microssegundo, décadas de condicionamento CLT colidem violentamente com a realidade do empreendedorismo. A resposta que surge na ponta da língua geralmente é um cálculo tímido, baseado no antigo holerite dividido por horas úteis, acrescido de uma margem de segurança. Se você já fez essa conta, trago uma notícia dura: você está deixando dinheiro na mesa e, pior, está desvalorizando o ativo mais precioso da economia prateada.
A transição do “Empreendedor 5.0” não é apenas sobre dominar ferramentas digitais ou entender a Inteligência Artificial; é, primariamente, uma revolução na psicologia financeira. Para o profissional que passou a vida acostumado ao “pinga-pinga” mensal, garantido e estável, a precificação de serviços intelectuais é um terreno minado por crenças limitantes. O salário, que por anos serviu como bitola de sucesso e segurança, torna-se, na fase autônoma, uma âncora pesada que impede o voo para o faturamento de alto nível (high-ticket).
O problema reside na incapacidade de dissociar “esforço” de “valor”. No mundo corporativo tradicional, somos treinados a acreditar que a remuneração é uma compensação pelo sacrifício do nosso tempo e pela nossa presença física. No universo da consultoria estratégica, essa lógica é invertida. O cliente não paga pelas horas que você gasta suando sobre um problema; ele paga pelos trinta anos que você levou para saber exatamente onde bater o martelo para resolver esse problema em dez minutos.
A Falácia da “Hora-Executiva” e a Armadilha do Custo
Quando um diretor financeiro ou um VP de operações decide atuar como conselheiro ou consultor, a tendência natural é buscar uma equivalência aritmética. “Se eu ganhava cinquenta mil reais por mês, minha hora vale X”. Esse pensamento linear ignora a natureza exponencial da consultoria. Ao vender horas, você se torna uma commodity. Você se coloca na mesma prateleira de profissionais júnior que também vendem tempo, apenas com uma etiqueta de preço ligeiramente maior.
O erro crasso aqui é a precificação baseada em custos (o custo da sua vida, o custo do seu escritório), em vez da precificação baseada em valor (value-based pricing). No modelo mental do Empreendedor 5.0, a equação muda drasticamente. Você não está vendendo um processo; você está vendendo um resultado, uma mitigação de risco ou uma aceleração de futuro. Quanto vale para uma empresa evitar uma fusão desastrosa? Quanto vale implementar uma cultura de inovação que a proteja da obsolescência? Certamente vale muito mais do que a soma das horas que você dedicará ao projeto.
Executivos seniores frequentemente sofrem de uma “miopia de competência”. Aquilo que é óbvio para você — a leitura de entrelinhas em um balanço, a gestão de crises políticas internas, a negociação com fornecedores hostis — é, para o mercado, uma “Experiência Tácita” rara e preciosa. Você desvaloriza essas habilidades porque elas lhe parecem naturais, quase instintivas. No entanto, é exatamente essa intuição blindada pela experiência, agora potencializada pela eficiência da IA, que constitui o “novo ouro”. Cobrar barato por isso não é humildade; é um erro estratégico que sinaliza ao mercado que seu conhecimento é trivial.
Psicologia Financeira: O Medo do “Não” e a Necessidade de Validação

Aprofundando na psique do executivo em transição, encontramos o medo visceral da rejeição. Após anos protegidos pelo sobrenome de uma grande corporação, o profissional se vê nu, tendo que vender a si mesmo. O medo de ouvir um “está caro” faz com que muitos antecipem o desconto, sabotando a própria autoridade antes mesmo de a negociação começar. Existe uma crença subconsciente de que, ao cobrar valores elevados, estamos sendo gananciosos ou impostores, especialmente quando o trabalho intelectual parece “leve” comparado ao estresse operacional de antigamente.
É imperativo desconstruir a noção de que dinheiro difícil é o único dinheiro honesto. A longevidade produtiva exige que trabalhemos de forma mais inteligente, não mais árdua. A segurança financeira na maturidade não virá de um contrato de longo prazo com um único pagador (o que é apenas um emprego disfarçado e sem benefícios), mas da construção de uma carteira de clientes que pagam um prêmio pela certeza que só a sua senioridade pode oferecer.
Ao cobrar um valor high-ticket, você não está apenas aumentando sua margem de lucro; você está filtrando clientes. Empresas que buscam consultoria barata geralmente são as que dão mais trabalho, têm menos estrutura para implementar suas recomendações e valorizam menos o seu diagnóstico. Por outro lado, o preço elevado funciona como um mecanismo de posicionamento. Ele comunica, sem que você precise dizer uma palavra, que a solução que você traz é robusta, testada e exclusiva. O preço é, em si, uma ferramenta de branding pessoal.
A Alavancagem Tecnológica: Onde a IA Encontra a Experiência
Aqui entra o diferencial do Empreendedor 5.0. Se a sua experiência justifica o preço alto, a Inteligência Artificial justifica a margem de lucro e a escalabilidade. O executivo tradicional teme que a IA o substitua. O estrategista sênior sabe que a IA é sua equipe de suporte incansável.
Ao utilizar ferramentas de IA generativa para estruturar apresentações, analisar dados preliminares ou redigir contratos, você reduz drasticamente o tempo operacional “braçal”. No entanto — e este é o ponto crucial —, você não deve repassar essa economia de tempo como um desconto para o cliente. A eficiência gerada pela tecnologia é o seu lucro. O cliente paga pela solução (o “o quê” e o “porquê”), não pelo tempo que você levou digitando (o “como”).
A combinação da sua visão estratégica (que sabe o que perguntar à IA) com a velocidade da máquina permite que você entregue projetos complexos em prazos recordes. Isso aumenta o valor percebido pelo cliente, que tem pressa, ao mesmo tempo em que libera sua agenda para atender mais contas ou, simplesmente, para desfrutar a qualidade de vida que a maturidade deve proporcionar.
Conclusão: A Coragem de Cobrar pelo Legado
A transição de executivo para consultor de elite exige mais do que um novo cartão de visitas; exige um transplante de mentalidade. É necessário abandonar a segurança narcótica do salário mensal e abraçar a volatilidade recompensadora do faturamento por performance e valor. Seu conhecimento acumulado, suas cicatrizes de batalha e sua rede de contatos são ativos intangíveis irreplicáveis. Nenhuma IA, por mais avançada que seja, possui o contexto emocional e político que você carrega.
Portanto, na próxima vez que for precificar sua consultoria, não olhe para o relógio e nem para o seu último holerite. Olhe para o tamanho do problema que você resolve e para a raridade da sua competência. Se o valor soar desconfortavelmente alto para o seu “eu” do passado, é provável que você esteja, finalmente, começando a cobrar o preço justo. O mercado respeita quem se respeita.
Próximo Passo
Você sente que sua precificação atual reflete o auge da sua carreira ou apenas cobre seus custos de vida? Convido você a fazer um exercício hoje: revisite sua última proposta comercial e pergunte-se: “Se eu dobrasse este valor, qual seria a justificativa estratégica baseada no resultado que entregarei?”. A resposta pode ser o primeiro passo para sua verdadeira liberdade financeira.





